sábado, 24 de maio de 2014

Dispensacionalismo: Origem, Significado e Terminologia

 
Entre os protestantes, período em que o indivíduo é experimentado quanto à sua obediência a alguma revelação especial da vontade de Deus.
O dispensacionalismo é um sistema de interpretação profética futurista, esboçado no 2o século, utilizado na contra-reforma católica no século 16, reformulado no século 19 pelos Irmãos Plymouth e popularizado pela Bíblia de Referência de Scofield na década de 1920, o qual faz uma forte separação entre a Igreja e Israel, ensinando que a Igreja será arrebatada e Israel continuará na Terra sofrendo a ira de um anticristo político e desempenhando um papel fundamental na conversão do mundo. Outro fator que muito contribuiu para a difusão do pensamento dispensacionalista foi a publicação da Bíblia de Referência de Scofield, em 1909, ou mais corretamente, a Bíblia de Referência de Scofield, é uma edição da Versão King James, com anotações feitas por C. I. Scofield (1843-1921), na linha de interpretação dispensacionalista.
Em 1948, com a criação do Estado de Israel e o retorno dos judeus à Palestina, os adeptos do "dispensacionalismo" se agitaram. Pois para eles, o estabelecimento do Estado de Israel faz parte do cumprimento literal de profecias do Antigo Testamento e sinaliza o breve regresso de Jesus. Podemos citar alguns nomes importantes na divulgação e proclamação do dispensacionalismo, J. N. Darby, C. I. Scofield, Leon J. Wood e Hal Lindsey, entre outros. A idéia básica do dispensacionalismo é que Deus tem tentado vários métodos que não têm sido bem sucedidos. Cada método, ou dispensação, teria sido abandonado totalmente, antes do método seguinte ser experimentado, de tal modo que as prescrições divinas para uma dispensação não são válidas na próxima dispensação. Por sua vez a teologia dos pactos se opõe a essas mudanças radicais nos métodos divinos.
Essa doutrina teológica escatológica afirma que a segunda vinda de Jesus Cristo será um acontecimento no mundo físico, envolvendo primeiro o arrebatamento com posterior período de sete anos de tribulação, durante o qual ocorrerá a batalha do Armagedom e o estabelecimento do reino de Deus na Terra. Afirma que as profecias apocalípticas, em grande parte, aguardam no futuro o seu cumprimento, transferem a profecia de um período passado imediatamente anterior ao segundo advento e transferem para frente.
O PROGRAMA ESCATOLÓGICO
Aqui no Brasil os Batistas Regulares, o Instituto Bíblico Palavra da Vida, a Chamada da Meia Noite, inclusive outras missões estrangeiras e escolas iniciadas por missionários da outra América, divulgam esta posição teológica. Livros, traduzidos do inglês tal como "A Agonia do Planeta Terra", por Hal Lindsay, que já disseminou mais de 18 milhões de exemplares em diversas línguas no mundo inteiro, expressam bem a popularidade que o dispensacionalismo alcançou, especialmente nos Estados Unidos.
Segundo os dispensacionalistas, brevemente haverá o desenvolvimento do seguinte quadro escatológico:
1 - Israel, a nação judaica, estaria no centro do plano divino para a humanidade. Restaurada para a terra da Palestina, Israel reconstruirá o templo e restabelecerá os sacrifícios levíticos exigidos pela lei mosaica como no passado.
2 - O poder político internacional será exercido pelo governador satânico - o Anticristo, também chamado "a Besta" ou "Homem da Iniqüidade". (1Jo 4:3; Ap 13; 2Ts 2:3).
3 - O cristianismo apóstata unindo o Catolicismo, a Igreja Ortodoxa, e o Modernismo protestante; chamado a Meretriz, se aliará com o Anticristo (Ap17) e prosperará através da união adúltera durante um tempo.
4 - O pecado aumentará entre os homens e chegará a uma profundidade e intensidade jamais vistas a não ser talvez na época do Dilúvio.
5 - A ira de Deus será derramada sobre a terra numa série de julgamentos cataclísmicos.
6 - Quando a Besta (Anticristo) romper com a nação israelita, provocará uma crise internacional que atingirá seu auge na guerra do Armagedom.
Tudo culminará no fim dos sete anos de tribulação com a vinda de Jesus Cristo com seus santos (a parousia). Após a parousia, o reino do Anticristo será destruído e Cristo passará a reinar sobre a terra. Assim se cumprirão literalmente as profecias do Antigo Testamento que prevêem um reino messiânico na terra. Passados os mil anos previstos em Apocalipse 20, Satanás será solto da sua prisão, encabeçará uma revolta breve pelos moradores não regenerados do mundo, mas ela será esmagada. Sucederá então o último julgamento do Trono Branco (Ap 20:11-15). Os mortos não convertidos serão ressuscitados para serem julgados segundo suas obras. Os santos, judeus e gentios, gozarão a vida perfeita na nova terra eternamente.
PROBLEMÁTICAS TEOLÓGICAS DISPENSACIONALISTAS
Há linhas divergentes no pensamento dispensacionalista. Um dos pontos de diferença é o que se refere à grande tribulação. Uns a consideram uma dispensação à parte, ao passo que outros não concordam.
Outro ponto grave de discordância é a questão quanto à existência de diferentes meios de salvação em cada dispensação, bem como diretrizes diversas para um viver obediente após a "conversão". Uma crença comum entre eles é que as dispensações da lei e da graça representam meios alternativos de salvação. Esta crença baseia-se em algumas notas da Bíblia de Referência de Scofield. Nesse ponto de vista, no período da lei, a obediência à mesma era condição para a salvação. Após a morte de Cristo, a condição passaria a ser a fé em seu sacrifício. Entretanto, a maioria dos teólogos dispensacionalistas crêem que a morte de Cristo é a base para salvação em todas as épocas, sendo a fé a condição exigida.
Para a maioria dos teólogos que defendem essa linha de interpretação a mudança primordial entre as dispensações não está nos meios de salvação, mas nas especificações para o viver obediente que acompanham o compromisso de uma pessoa de aceitar a salvação de Deus. Outro ponto de desacordo e muitas vezes uma razoável soma de ambigüidade, é o grau de aplicabilidade das ordens dadas numa dispensação para os crentes de outra.
Um dos principais desafios que o dispensacionalismo enfrenta hoje é o desenvolvimento de uma posição que especifique com clareza como as ordens de uma dispensação anterior se aplicam aos crentes de uma dispensação sucessiva. Evidentemente, se essa teoria é correta, então ela representa um poderoso instrumento hermenêutico, decisivo se devemos interpretar as promessas e ordens bíblicas corretamente. Por outro lado, se a teoria é incorreta, então aquele que ensina tais distorções poderia correr sério risco de trazer sobre si próprio os juízos de Mt 5:19.
Cinco desacertos teológicos consideráveis
1) A separação de Israel e a Igreja - Um dos fundamentos do dispensacionalismo é que Israel é Israel, a Igreja é a Igreja, e nunca os dois podem ser confundidos. Isto é contrário ao ensino da Escritura de que o "Israel" do Antigo Testamento, tanto natural como espiritual, é a Igreja (Rm 2:28-29). Em At 7:38 Israel é chamado de "a igreja no deserto". Em Hb 12:22-24, Jerusalém e Sião são identificados como a Igreja (ver também Gl 3:29 e Fp 3:3). Em Ap 2:9-10 a noiva, a esposa do Cordeiro, é identificada com a Nova Jerusalém. Dessa forma a separação que se faz entre Israel e a Igreja por parte dos dispensacionalistas não tem devida base bíblica, não tem o respaldo das escrituras.
2) A separação entre a obra de Cristo em favor dos judeus e sua obra em favor da igreja - Ensinam que Cristo é o Rei de Israel, mas o Cabeça da Igreja. As notas da Bíblia de Estudo Scofield ensinam até mesmo que o povo do Antigo Testamento foi salvo de outra forma que não pela fé na obra expiatória de Cristo e que Deus tem mais de um plano de salvação. Isto é contrário ao claro ensino da bíblia que Cristo é o mesmo Salvador, tanto no Antigo quanto no Novo (Gl 3:28-29; 1Tm 2:5-6; Hb 11:6). O Deus que projeta um plano de salvação antes que houvesse mundo para resgate da raça humana, não poderia restringir essa dádiva apenas a algum grupo de pessoa ou raça. Ap 13:8; Todo o que se salvar será salvo por Jesus Jo 14:6. 1Pe 1:18-20;
3) A exclusão dos santos do Antigo Testamento do "corpo" e da "noiva" de Cristo - Isso procede certamente, da separação que se faz entre Israel e a Igreja, e entre a relação de Cristo para com Israel como Rei, e para com a Igreja como cabeça. Mas tal ensino também é contrário a Escritura, que inclui os santos do Antigo Testamento "na família da fé" e numera-os no corpo e noiva de Cristo (Ef 2:11-18), especialmente o verso 16, que fala do fato que judeus e gentios foram reconciliados "em um corpo", Ap 21:9-10 onde a "noiva" a esposa do Cordeiro é identificada com a Nova Jerusalém.
4) O Espírito Santo será retirado da terra durante o período de 7 anos entre o rapto e a revelação - Durante esse período os judeus supostamente serão salvos e trazidos à fé em Cristo sem as operações soberanas e graciosas do Espírito Santo. Isto, também, é contrário ao ensino da Escritura de que a fé é o dom de Deus através do Espírito Santo, e é contrário também ao ensino bíblico de que a regeneração, ou o novo nascimento, que é essencial para a salvação, é obra exclusiva do Espírito (Jo 3:3-8; Ef 2:8).
5) Com respeito ao assim chamado "mistério" da Igreja - Ensina que a história da Igreja no Novo Testamento é um "parêntese" e que a própria Igreja é um mistério nunca mencionado no Antigo Testamento. Isto contradiz o ensino da Escritura, que não somente profetiza a Igreja, mas realmente vê o Israel verdadeiro como a Igreja e a Igreja como Israel. Em At 15:13, Tiago aplica uma profecia do Antigo Testamento com respeito à Israel para o estabelecimento das igrejas gentílicas do Novo Testamento (comparar com At 7:38). Da mesma forma, a Igreja não é vista na Escritura como um "parêntese", mas como o objetivo e propósito de toda a obra de Deus na história. Ela é "a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas". (Ef 1:22-23), a "igreja gloriosa" que ele apresenta a si mesmo por toda a sua obra salvadora (Ef. 5:25-27). Apenas por estas 5 razões o dispensacionalismo já deveria ser rejeitado.

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